A endometriose é uma das condições ginecológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subdiagnosticadas do mundo. Estima-se que ela afete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva — o que representa aproximadamente 190 milhões de pessoas globalmente¹. Apesar desses números expressivos, muitas mulheres convivem anos com sintomas intensos antes de receber um diagnóstico adequado. Entender o que é a endometriose, como ela se manifesta e quais são as opções de tratamento é um passo importante para cuidar da sua saúde com mais consciência.
O que é endometriose?
A endometriose acontece quando um tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste o interior do útero — cresce fora da cavidade uterina. Esse tecido pode se instalar nos ovários, nas trompas, no peritônio (membrana que reveste o abdômen), no intestino e, em casos mais raros, em órgãos distantes como o diafragma².
Assim como o endométrio dentro do útero, esses implantes respondem aos hormônios do ciclo menstrual — crescem, sangram e provocam inflamação. O problema é que, diferente do sangue menstrual que é eliminado pela vagina, esse sangramento interno não tem saída, levando à formação de aderências, cicatrizes e dor crônica¹.
Sintomas: como reconhecer a endometriose
Os sintomas da endometriose variam bastante de mulher para mulher, mas alguns padrões são bem documentados pela ciência:
- Dor pélvica crônica: presente em cerca de 90% das pacientes, é o sintoma mais comum. Pode ser constante ou piorar durante a menstruação³.
- Dismenorreia severa: cólicas menstruais intensas que não melhoram com analgésicos comuns e podem ser incapacitantes.
- Dor durante a relação sexual (dispareunia): especialmente na penetração profunda, é frequente na endometriose profunda.
- Infertilidade: aproximadamente 26% das mulheres com endometriose enfrentam dificuldade para engravidar².
- Sintomas intestinais e urinários: dor ao evacuar, diarreia, constipação e urgência urinária, especialmente no período menstrual.
- Fadiga crônica: um sintoma frequentemente subestimado, mas que impacta significativamente a qualidade de vida.
Um ponto importante: a intensidade da dor nem sempre corresponde à gravidade da doença. Mulheres com lesões pequenas podem ter dor intensa, enquanto outras com endometriose extensa podem ser assintomáticas⁴.
O desafio do diagnóstico
Um dos aspectos mais frustrantes da endometriose é o tempo que leva para ser diagnosticada. Estudos mostram que o atraso médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico é de 7 a 10 anos². Isso acontece por vários motivos: a normalização da dor menstrual pela sociedade, a sobreposição de sintomas com outras condições (como síndrome do intestino irritável) e a falta de exames simples que confirmem a doença.
O diagnóstico pode envolver:
- Avaliação clínica detalhada: histórico de dor, padrões menstruais e exame físico.
- Ultrassonografia transvaginal: especialmente eficaz para detectar endometriomas ovarianos e endometriose profunda quando realizada por profissional especializado.
- Ressonância magnética: útil para mapear lesões profundas antes de uma eventual cirurgia.
- Laparoscopia: considerada o padrão-ouro para confirmação histológica, mas atualmente não é obrigatória para iniciar o tratamento³.
Os três tipos de endometriose
A classificação atual reconhece três apresentações principais da doença⁴:
- Endometriose superficial (peritoneal): lesões na superfície do peritônio. É a forma mais comum e geralmente a mais leve.
- Endometriose profunda infiltrativa: as lesões penetram mais de 5 mm nos tecidos e podem afetar ligamentos uterossacros, intestino, bexiga e ureteres. É a forma mais associada à dor intensa.
- Endometriomas ovarianos: cistos no ovário preenchidos com sangue antigo (conhecidos como "cistos de chocolate"). Podem comprometer a reserva ovariana e a fertilidade.
Uma mesma mulher pode apresentar mais de um tipo simultaneamente, e a abordagem terapêutica varia conforme a classificação e os sintomas predominantes.
Tratamento: o que a ciência recomenda
Não existe cura definitiva para a endometriose, mas existem estratégias eficazes para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. O tratamento deve ser individualizado e pode incluir¹²:
Manejo hormonal
O objetivo é suprimir a ovulação e reduzir a estimulação hormonal dos implantes endometrióticos. As opções incluem contraceptivos hormonais combinados (de uso contínuo), progestágenos isolados (como dienogeste), DIU hormonal (com levonorgestrel) e, em casos selecionados, análogos de GnRH. A escolha depende dos sintomas, do desejo reprodutivo e da tolerância individual.
Tratamento cirúrgico
A cirurgia laparoscópica é indicada quando o tratamento clínico não controla os sintomas, quando há endometriomas grandes ou quando a infertilidade é uma preocupação. O objetivo é remover as lesões preservando ao máximo os tecidos saudáveis. A excisão completa das lesões tende a ter melhores resultados do que a ablação (cauterização superficial)³.
Abordagem multidisciplinar
A endometriose afeta muito mais do que o corpo. Ansiedade, depressão e impacto na vida sexual e social são comuns. Por isso, o manejo ideal envolve uma equipe que pode incluir ginecologista, fisioterapeuta pélvica, psicóloga e nutricionista¹.
O que isso significa na prática
Se você sente dor pélvica intensa — seja durante a menstruação ou fora dela —, se suas cólicas são tão fortes que atrapalham suas atividades normais, ou se você tem dificuldade para engravidar, vale muito a pena conversar com um ginecologista sobre a possibilidade de endometriose. Lembre-se: dor menstrual incapacitante não é normal, mesmo que pessoas ao seu redor digam que é.
O diagnóstico precoce faz toda a diferença. Quanto antes a condição for identificada, mais cedo é possível iniciar o manejo adequado, prevenir a progressão da doença e proteger a fertilidade.
Como o Levvi pode ajudar
Uma das ferramentas mais valiosas no acompanhamento da endometriose é o registro consistente de sintomas. Com o rastreamento de ciclo do Levvi, você pode anotar a intensidade da dor pélvica, as características do fluxo menstrual e outros sintomas dia a dia. Esse histórico detalhado é extremamente útil nas consultas médicas — ajuda o profissional a identificar padrões, avaliar a resposta ao tratamento e tomar decisões mais informadas junto com você.
Dicas baseadas em evidências
- Registre seus sintomas diariamente: anote a localização, a intensidade e a duração da dor. Isso facilita o diagnóstico e o acompanhamento médico.
- Não normalize a dor: cólicas que impedem você de trabalhar, estudar ou realizar atividades normais merecem investigação médica.
- Considere a atividade física regular: exercícios aeróbicos de intensidade moderada podem ajudar a reduzir a dor pélvica crônica e melhorar o bem-estar geral.
- Busque apoio psicológico: a dor crônica pode afetar a saúde mental. Terapia cognitivo-comportamental e grupos de apoio são recursos valiosos.
- Converse sobre fertilidade com antecedência: se você deseja ter filhos no futuro, discuta essa questão com seu médico cedo, mesmo que não esteja planejando uma gestação imediata.
Perguntas frequentes
A endometriose tem cura?
Atualmente, não existe cura definitiva para a endometriose. No entanto, os tratamentos disponíveis — hormonais, cirúrgicos e complementares — permitem controlar os sintomas de forma eficaz na maioria dos casos. Muitas mulheres conseguem ter uma boa qualidade de vida com o manejo adequado.
Endometriose impede a gravidez?
Nem sempre. Embora cerca de 26% das mulheres com endometriose tenham dificuldade para engravidar, a maioria consegue — seja naturalmente ou com auxílio de tratamentos de reprodução assistida. O diagnóstico precoce e o planejamento reprodutivo com acompanhamento médico aumentam significativamente as chances.
Como saber se minha cólica é normal ou pode ser endometriose?
Cólicas menstruais leves são comuns, mas quando a dor é intensa o suficiente para impedir atividades do dia a dia, não responde a analgésicos comuns, piora progressivamente ao longo dos anos ou vem acompanhada de outros sintomas (como dor durante a relação sexual ou alterações intestinais no período menstrual), é importante procurar avaliação médica. Registrar seus sintomas pode ajudar muito nessa conversa com o profissional de saúde.

